Agências de Desenvolvimento Local

Por: Gláucio Gomes

A Rummos é uma organização sem fins lucrativos de suporte ao fortalecimento do Terceiro Setor no Brasil. Um de seus programas tem como foco a implantação e a sistematização de agências de desenvolvimento local (ADL). A Rummos, hoje, assessora duas organizações que são ADLs: a ADEL (Agência de Desenvolvimento Econômico Local), de Pentecoste, no Ceará, e o Ateliê de Idéias, de Vitória, no Espírito Santo. 
A ADEL atua em toda a microrregião do Médio Curu – um território composto por quatro municípios, todos no semiárido e com economia rural baseada na agricultura familiar. Trabalha com a articulação e coordenação de recursos e atores para promover o desenvolvimento local sustentável de territórios rurais, com ênfase no fortalecimento da agricultura familiar, na formação de redes e no empreendedorismo juvenil.
Fundada em 2007, já atendeu a cerca de 600 pequenos agricultores e suas famílias, com especial atenção aos jovens (inclusão produtiva e manutenção desses jovens no campo) e a estratégias para estimular a cooperação para o desenvolvimento local, a participação dos pequenos produtores nos processos decisórios e políticas públicas e para formação de recursos humanos qualificados para aumentar a produtividade e rentabilidade da agricultura familiar.
O Ateliê de Idéias atua no Território do Bem – uma região formada por oito comunidades de baixa renda na área central de Vitória, capital capixaba. Trabalha com a potencialização de idéias, soluções e tecnologias sociais inovadoras e viáveis que partam dos próprios atores locais das comunidades atendidas – de modo endógeno.
O Ateliê de Idéias provê apoio técnico, político e gerencial para a organização dessas comunidades, para o mapeamento de suas potencialidades e limitações, o planejamento e a gestão participativa do território e a implantação de projetos e iniciativas priorizadas pelos próprios moradores, a partir de um processo decisório coletivo em um fórum comunitário chamado de Fórum Bem Maior. Alguns desses projetos se tornaram estruturas comunitárias de destaque: como o Banco Bem (banco comunitário que atende ao território) e o Programa de Incubação de Empreendimentos de Economia Solidária – através do qual o Ateliê de Idéias apóia diversas iniciativas produtivas de grupos de moradores locais.
A ADEL tem seu foco de atuação em áreas rurais. Enquanto o Ateliê de Idéias trabalha com territórios urbanos.
Essas duas organizações vêm tendo grande reconhecimento de suas comunidades e da sociedade como um todo, indicado pelos prêmios e menções de destaque que receberam nos últimos meses. 
A ADEL, através de seu diretor executivo, Wagner Gomes, recebeu o Prêmio Empreendedor Social de Futuro, concedido pela Folha de São Paulo, em parceria com a Fundação Schwab. Ganhou uma menção honrosa no Prêmio Celso Furtado, realizado pelo Ministério da Integração Regional, e foi segunda colocada no Prêmio Rosani Cunha, do Ministério do Desenvolvimento Social. 
O Ateliê de Idéias também foi bastante premiado. A empreendedora social da Ashoka Leonora Mol, sua diretora executiva, foi finalista do Prêmio Cláudia, da Editora Abril. A organização recebeu o Prêmio Atitude Sustentável, da Rede Gazeta/ES e o Prêmio ODM (Objetivos do Milênio) do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Caixa Econômica Federal e Gabinete da Presidência da República, tendo ainda sido escolhida pelo Prêmio Melhores Práticas da Caixa Econômica Federal. Também foi segunda colocada na etapa regional do Prêmio FINEP de Inovação.
Esses prêmios para ambas as entidades refletem o reconhecimento de suas práticas e estratégias. A questão é que os métodos da ADEL e do Ateliê de Idéias têm muito em comum. As duas organizações são essencialmente similares: tanto pela atuação no segmento de desenvolvimento local, como pelos valores e pelas diretrizes de suas estratégias. Ambas são agências de desenvolvimento local. 
As duas organizações têm em comum o fato de serem estruturas exógenas, técnicas e especializadas em assessoria, formação, mobilização e articulação de atores e recursos, que atuam em prol do desenvolvimento local dos territórios, urbanos ou rurais, com ênfase na criação de estruturas sustentáveis de fortalecimento organizativo, econômico e social. Suas estratégias consistem sempre em pôr os atores locais no centro de todo o processo, desenvolvendo formas para que se apropriem dos resultados, dos projetos, dos conhecimentos e das ferramentas, de modo a serem autônomos em longo prazo.
Os métodos da ADEL e do Ateliê de Idéias partem do mesmo princípio: que o desenvolvimento apenas é sustentável quando ocorre com base no equilíbrio entre a construção de capacidades de governança (organização, gestão, cooperação e diálogo com políticas públicas) e a estruturação dos segmentos econômicos (produtivas e comerciais) e sociais (serviços essenciais para garantia de direitos) no território – considerando as variáveis culturais e ambientais.
A sustentabilidade vem do fato do foco não ser o atendimento às pessoas. E sim a criação de mecanismos de cooperação e governança local, para que as comunidades sejam produtoras de seus próprios benefícios em maior prazo. O que significa, em síntese, investir na formação de capital social e na inserção qualificada dos atores nos processos decisórios coletivos, em nível local – para que possam transformar demandas e potencialidades em subsídios para políticas públicas com maior qualidade e, assim, mais democráticas.
Acima de tudo, são organizações produtoras e difusoras de tecnologia social de desenvolvimento humano. Que gerem conhecimento em prol da construção de estratégias que podem ser experimentadas em um território e, uma vez sistematizadas, serem reaplicadas em maior escala em diversas outras comunidades e regiões. Tanto o Ateliê de Idéias como a ADEL já pensam e conduzem estratégias de reaplicação, com o objetivo de dar escala aos seus trabalhos. O Ateliê de Idéias deu início à reaplicação de sua tecnologia social em uma região do município de Cariacica, no Espírito Santo. Já tendo, inclusive, contribuído na criação de um novo banco comunitário. A ADEL está sistematizando sua tecnologia social e já planeja sua reaplicação em outras microrregiões cearenses que tem a agricultura familiar como principal vocação econômica, em cadeias produtivas como, por exemplo, a fruticultura.
A ADEL e o Ateliê de Idéias atuam como prestadoras de serviços técnicos na área de desenvolvimento social e econômico para essas comunidades e territórios. São empreendimentos sociais que oferecem insumos e ferramentas por um determinado prazo, tendo como diretriz o processo formativos dos seus clientes. Gerando, necessariamente, uma relação de independência. 
As agências de desenvolvimento local, como a ADEL e o Ateliê de Idéias, criam um modelo de relacionamento com as comunidades, territórios e suas instâncias organizativas (associações, cooperativas, fóruns, conselhos, etc) que é baseado em uma troca. Oferecem serviços como formação, assessoria, articulação e mobilização de parceiros externos para projetos endógenos e diagnósticos e avaliações, de demandas, de potencialidades e de impactos. Os atores locais mobilizam parcerias ou reúnem recursos próprios para custear os serviços entregues por essas organizações. Muitas vezes, especialmente nos primeiros anos de atuação, as próprias agências mobilizam parceiros externos, como investidores, para viabilizar a oferta desses serviços. Não é um relacionamento tradicional entre entidade e beneficiário. E sim uma relação entre organização técnica especializada, com produtos e serviços de qualidade, e um público que demanda esses produtos e serviços e participa do arranjo institucional ou empresarial necessário para viabilizar as operações. Em suma, uma relação entre oferta e demanda, com uma oportunidade para empreender socialmente.
Vale lembrar que desenvolvimento local não está associado apenas a pobreza e vulnerabilidade. Está associado à dinamização dos territórios, à identificação e ao aproveitamento de suas potencialidades, à valorização da inovação e do conhecimento e à formação, organização e articulação de recursos humanos. Todo território demanda apoio técnico, em muitos momentos, para compor essa equação. Independente de seu grau de riqueza. O que agências de desenvolvimento local fazem é atender a essa demanda. 
A principal lição que essas duas organizações deixam é que desenvolvimento humano apenas é sustentável quando está relacionado a um processo formativo amplo e baseado em equilíbrio entre muitas dimensões da vida em comunidade – não apenas a produtividade e renda, mas também a cooperação, democracia, capacidade de governança coletiva e garantia de direitos fundamentais. São organizações que, de fato, trabalham com o conceito de desenvolvimento como liberdade.
A Rummos está desenvolvendo, em parceria com a ADEL e o Ateliê de Idéias, um programa para sistematização e reaplicação de agências de desenvolvimento local no Brasil, com base nas experiências dessas duas organizações. 
Fonte: http://novos-rummos.blogspot.com/
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