“Quando decidi que queria empreender, inicialmente foi por necessidade. Minha mãe é sacoleira e, através de seu esforço, conseguiu segurar a barra que foi a separação de meu pai. Vendo isso, eu enxerguei que ela não sabia gerenciar bem o negócio e, como eu me identificava, resolvi investir na ideia de ter uma loja de roupas”.

Morando na sede do município de Paracuru, litoral oeste do Ceará, desde os três anos de idade, Mikaele de Sousa Reis, 18 anos, não imaginava que, aos 13 anos, tivesse que morar na pacata comunidade de Lagoa do Mato, em São Gonçalo do Amarante.

A jovem conta que a vinda dela e da família para a comunidade foi motivada pela separação dos pais. “Foi muito difícil se adaptar, eu não queria vim para cá, vim meio que obrigada. Morava em Paracuru, um centro urbano bastante diferente, mas aos poucos comecei a me adaptar e participar de atividades na comunidade, hoje não me vejo saindo daqui. Minha mãe até pensa em voltar, mas eu não quero”.

Diferente da sede do município de Paracuru, a comunidade de Lagoa do Mato apresenta alguns desafios. O acesso à Escola, transporte, áreas de lazer e trabalho para juventude são bastante limitados, e muitos jovens chegam até a migrar para a cidade. No entanto, Mikaele, ao ingressar no Programa Jovem Empreendedor Rural (PJER) da Adel, viu que na comunidade existem muitas oportunidades.

Muito participativa, Mikaele começou a se engajar no grupo de jovens local e, apesar das dificuldades de acesso à Escola, concluiu o Ensino Médio e fez vários cursos com o propósito de se especializar e ajudar a mãe dela. “Eu sabia das dificuldades que ela tinha para cuidar da gente sozinha e queria muito ajudar. Também sempre quis ter uma renda”.

A mãe de Mikaele, Leda, fazia alguns “bicos” e vendia roupas para criar os três filhos. Mikaele, por ser a filha mais velha, cedo começou a ajudar a mãe. “Quando decidi que queria empreender, inicialmente foi por necessidade. Minha mãe é sacoleira e, através de seu esforço, conseguiu segurar a barra que foi a separação de meu pai. Vendo isso, eu enxerguei que ela não sabia gerenciar bem o negócio e, como eu me identificava, resolvi investir na ideia de ter uma loja de roupas”.

Em 2015, Mikaele soube, por intermédio de uma amiga, das inscrições do Curso de Empreendedorismo e Gestão de Negócios do Programa Jovem Empreendedor Rural (PJER) desenvolvido pela Adel. De imediato, ela buscou mais informações e se inscreveu.

No início, os avós e tios da jovem não a apoiaram. Consideravam que não era viável a ida de Mikaele para as formações presenciais. Mas Leda deu todo apoio à filha e reconhece que o Programa trouxe muitas transformações para Mikaele e a família dela.

“Quando vejo a Mikaele interessada em estudar, a participar de grupos religiosos e buscando algo para nos ajudar, me emociona. Incentivo muito ela a investir nos seus sonhos, ela sempre enfatiza que irá me ajudar muito com os conhecimentos que aprendeu no curso da Adel”, conta emocionada Leda.

Mikaele relata que, no Programa Jovem Empreendedor Rural, aprendeu as ferramentas básicas para empreender e compartilhar com outros jovens seus sonhos. “No curso, aprendi a lidar com as outras pessoas, com as diferenças, os conteúdos me ajudaram muito. Não era como na escola, não era uma coisa que você era obrigado a fazer, você fazia porque você queria, porque queríamos de verdade aprender”.

Após o Curso Empreendedorismo e Gestão de Negócios, Mikaele acessou um microcrédito no Fundo Veredas, estratégia da Adel para apoiar os jovens rurais que desejam empreender. Apresentou o plano de negócios do empreendimento “Mika Looks”, uma loja especializada em roupas femininas e, com o suporte financeiro da Adel, iniciou o próprio negócio.

Com o apoio do Fundo Veredas, Mikaele, juntamente com sua mãe, comprou mais roupas e ampliou o número de clientes. Juntas, mãe e filha continuaram trabalhando como sacoleiras e começaram a utilizar as redes sociais para divulgar os produtos.

Na comunidade, Mikaele é vista como uma jovem de sucesso e já inspirou mais duas outras jovens a ingressarem no Programa. “Hoje sou além de sacoleira, uma empreendedora. No curso, compreendi e pude mostrar para minha mãe a importância do fluxo de caixa, de criar uma tabela e acompanhar a entrada e saída de produtos”.

Após dez meses de implantação do empreendimento, a vida da família mudou. O empreendimento de Mikaele ampliou e ela passou a fazer com a mãe o fluxo de caixa para acompanhar o retorno financeiro da atividade. O desejo da jovem de voltar para Paracuru também já não é o mesmo. “Inicialmente não me identificava com o meio rural, não queria mesmo vir para a comunidade. Aí, quando vi a chance do PJER, pensei que eu poderia ser um exemplo para outros jovens na comunidade. Hoje já sou exemplo, me destaco quando falo da minha experiência no Programa”, conta entusiasmada.

A mãe orgulhosa diz que o Programa trouxe muitas transformações, e Mikaele ressalta que ter o apoio financeiro é essencial para empreender. “Depois do acesso ao Fundo Veredas, as coisas melhoraram. Hoje eu posso comprar o que eu quero, tenho autonomia financeira e ajudo minha família. Espero ampliar o número de clientes e ser referência para outros jovens”.